O Blues pós parto e o relacionamento conjugal

 

A influência das alterações emocionais do pós parto no relacionamento do casal

 

O nascimento de um filho é normalmente visto, na nossa cultura, como uma fase da vida da mulher de satisfação e felicidade plena. Esta ideia romantizada leva a que frequentemente as  mulheres que não sentem esta sensação de felicidade absoluta se culpem por isso, escondam o que realmente sentem e anulem as suas emoções. Esta situação pode levar a que o Blues pós parto seja ainda mais intenso e influenciar de forma muito significativa o relacionamento conjugal. Compreender a forma como estas alterações emocionais influenciam o relacionamento pode ser decisivo para o casal nesta fase.

 

De acordo com cada civilização a maternidade pode ser vista como uma experiência perigosa, dolorosa, interessante, satisfatória ou importante. A forma como a maternidade é vivenciada prende-se com as características de cada mulher e da sua cultura. A identidade da mulher como mãe vai sempre depender dos seus valores assim como engloba o sistema de valores da cultura em que ela está inserida.

A maternidade é um fenómeno complexo que envolve adaptações significativas ao nível físico, psicológico, social e emocional que podem interferir bastante no bem-estar materno. A literatura aponta esta fase da vida da mulher como um dos períodos de maior risco para a sua saúde mental. A maioria das mulheres acaba por se adaptar à maternidade de uma forma saudável e funcional ainda assim é frequente, no período pós-parto, sentirem alguma instabilidade emocional.

Nem sempre é linear diferenciar se a resposta emocional que a mulher apresenta corresponde a uma patologia, por exemplo a depressão pós-parto, ou se se trata de uma reação psicológica normal perante os desafios típicos desta fase – o Blues pós parto.

A maioria das mulheres apresentam neste período alterações do humor,  irritabilidade, choro fácil e melancolia. O Blues pós parto surge, frequentemente, nos primeiros dias após o nascimento do bebé e está relacionado com a reorganização hormonal/metabólica assim como com os vários ajustes e desafios deste período, nomeadamente de rotinas. Habitualmente estes sintomas são menos intensos e transitórios e têm pouco impacto na qualidade de vida da mulher e na sua relação com o bebé, companheiro e outros elementos da família.

Estudos referem que ainda que uma percentagem pequena de mulheres evolua de um Blues para um estado de depressão pós parto é mais provável que isto aconteça em mulheres que experienciaram uma situação de blues intenso.

No caso da depressão pós-parto estamos perante uma perturbação psicológica, em que os sintomas depressivos poderão surgir em qualquer outro momento do primeiro ano de vida da criança e os mesmos não desaparecem facilmente, podendo tornar-se mais intensos. Ainda que os estudos apontem para uma prevalência de 10 a 15% de depressão pós parto, este número pode estar muito abaixo da realidade.

O diagnóstico da depressão pós-parto pode não ser linear já que é frequente as mulheres apresentarem nesta fase vários sintomas como por exemplo perturbação do sono, alteração do apetite, perda de energia e diminuição da libido, entre outros, o que pode levar à desvalorização da sintomatologia.  A ausência de tratamento pode, naturalmente, agravar a doença.

 

O relacionamento conjugal pode ser influenciado de forma muito significativa pela ocorrência de alterações emocionais, sejam elas benignas e passageiras (Blues) ou patológicas (Depressão pós parto).

Cada membro do casal pode percepcionar o relacionamento como melhor ou pior de acordo com a proximidade entre ambos no relacionamento conjugal.

Existem vários aspectos da relação que influenciam a interacção dos conjuges e consequentemente a percepção do relacionamento. A   comunicação, a afectividade, a compatibilidade sexual, as actividades sociais assim como a compatibilidade do sistema de valores de ambos são exemplos destes aspectos. É expectável que quanto mais pontos em comum os membros do casal tiverem mais qualidade vão atribuir à relação.

Nos relacionamentos, seja no periodo pós parto ou não, é extremamente importante o apoio mútuo dos conjuges. O apoio do conjuge à mulher pode ser material (actividades de suporte) ou afectivo (intimidade e suporte afectivo e emocional). Por exemplo o tempo que o pai passa com a criança, a frequência com que toma iniciativa e executa tarefas de cuidado ao filho (como mudar fralda, dar banho, alimentar ou brincar), o tempo que dispende para várias outras tarefas familiares assim como o apoio afectivo dado à mulher podem ser a chave para um substancial fortalecimento da relação no pós parto.

Não é suficiente encorajar os maridos a apoiar mais adequadamente as mulheres já que no caso de eles se sentirem menos realizados do ponto de vista da relação (ou mesmo caso estejam deprimidos) serão naturalmente menos capazes de dar esse apoio de forma efectiva.

Idealmente deveria ser dada atenção a ambos os conjuges, do ponto de vista emocional,  numa visão ampla, especialmente neste periodo tão desafiante.

Não posso deixar de salientar os riscos que a depressão pós parto traz também para o bebé. Existe o risco efectivo de a sintomatologia depressiva ter um efeito nefasto na relação mãe-bebé. A mãe pode, de forma inconsciente e não intencional, “rejeitar” o bebé mostrando hostilidade o que dá origem a sentimentos desagradáveis de culpa. A depressão pós parto pode ter uma influência negativa muito significativa e a longo prazo na família.

Ainda que a frequência de cursos de preparação para a parentalidade seja relativamente vulgar neste momento,  existem estudos que apontam para a falta de preparação dos futuros progenitores para os novos papéis de pai e mãe. Falta hoje uma verdadeira rede de apoio familiar, há menos disponibilidade por parte dos avós que ainda trabalham assim como existem menos crianças na família, logo menos oportunidades de aprendizagem com outros pais. O apoio da família mais próxima do casal deve ser apoio efectivo e não a simples visita de cortesia. Refiro-me ao apoio de familiares que ajudem efectivamente o casal a criar a sua identidade de pai e mãe, a maturarem a sua segurança nestes papéis, em suma a evoluir enquanto pai e mãe. Este tipo de apoio é decisivo no aumento da coesão entre os membros do casal e da familia no sentido de uma, tão saudável, interajuda mútua.

A nossa sociedade condiciona a mulher a sentir-se “obrigada”a aparentar estar sempre feliz no periodo pós parto e automaticamente a se sentir culpada por estar em sofrimento  nesta fase. Tudo isto pode levar a que esta evite falar sobre o seu estado emocional e que não procure ajuda profissional.

É extremamente importante uma avaliação cuidada da saúde emocional no pós parto. A forma como as mães, pais, profissionais de saúde e sociedade encaram a experiência emocional do pós-parto influencia a forma como a mulher se adapta à maternidade.

Mesmo sendo muito desejado o nascimento de um filho leva a que tenhamos a cada momento de encontrar o equilíbrio entre situações muito diversas e muitas vezes difíceis de conjugar: o esforço com a ternura, o cansaço com o cuidar, o medo com o amor, e a irritabilidade com o colo. E no meio de tudo isto a culpa de não estarmos (achamos nós!) a dar conta do recado.

É essencial continuar a valorizar a parte emocional do pós parto e sobretudo retirar das mulheres a imposição da perfeição no saber amar e no saber cuidar. Importa, também, que os casais se aproximem nos seus novos papéis, aceitando as vulnerabilidades que cada um vai descobrindo ao longo da viagem. Com muita compaixão/autocompaixão e sem culpas. Acima de tudo tendo sempre presente que são os MELHORES PAIS que o vosso bebé poderia ter!

 

 

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